terça-feira, 2 de junho de 2015
Se eu falar que hoje acordei triste, que não foi fácil sair da cama, mesmo sabendo que o sol estava bonito lá fora, mesmo sabendo que havia muitas providências a tomar, se eu disser que foi assim, o que você me diz? Se eu lhe disser que hoje não foi um dia como os outros, que não encontrei energia nem pra sentir culpa pela minha preguiça, que hoje levantei devagar e tarde e que não tive vontade de nada, você vai reagir como?
Você vai dizer “anima” e me recomendar um antidepressivo.
Você vai fazer isso porque gosta de mim, ou talvez porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo.
A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto à alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.
Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.
“Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio à música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.
Você vai dizer “anima” e me recomendar um antidepressivo.
Você vai fazer isso porque gosta de mim, ou talvez porque é mais um que não tolera a tristeza: nem a minha, nem a sua, nem a de ninguém. Tristeza é considerada uma anomalia do humor, uma doença contagiosa, que é melhor eliminar desde o primeiro sintoma. Não sorriu hoje? Medicamento. Sentiu uma vontade de chorar à toa? Gravíssimo.
A verdade é que eu não acordei triste hoje, nem mesmo com uma suave melancolia, está tudo normal. Mas quando fico triste, também está tudo normal. Porque ficar triste é comum, é um sentimento tão legítimo quanto à alegria, é um registro de nossa sensibilidade, que ora gargalha em grupo, ora busca o silêncio e a solidão. Estar triste não é estar deprimido.
Depressão é coisa muito séria, contínua e complexa. Estar triste é estar atento a si próprio, é estar desapontado com alguém, com vários ou consigo mesmo, é estar um pouco cansado de certas repetições, é descobrir-se frágil num dia qualquer, sem uma razão aparente – as razões têm essa mania de serem discretas.
“Não quero te ver triste assim”, sussurrava Roberto Carlos em meio à música. Todos cantam a tristeza, mas poucos a enfrentam de fato. Os esforços não são para compreendê-la, e sim para disfarçá-la, sufocá-la. Claro que é melhor ser alegre que ser triste (agora é Vinícius), mas melhor mesmo é ninguém privar você de sentir o que for. Em tempo: na maioria das vezes, é a gente mesmo que não se permite estar alguns degraus abaixo da euforia.
Tem dias que não estamos pra samba, pra rock, pra hip-hop, e nem pra isso devemos buscar pílulas mágicas para camuflar nossa introspecção, nem aceitar convites para festas em que nada temos para brindar. Que nos deixem quietos, que quietude é armazenamento de força e sabedoria, daqui a pouco a gente volta, a gente sempre volta, anunciando o fim de mais uma dor – até que venha a próxima, normais que somos.
quarta-feira, 6 de maio de 2015
Ser você o coração que tanto precisa!
Se eu soubesse, durante toda a minha vida, o que sei hoje, teria sido um tantinho mais feliz no passado. E em todos os meus relacionamentos, claro. Embora a gente saiba que uma paixão desorienta e desatina até a mais sensata das mulheres, respirar fundo e colocar um tantinho de razão nas nossas ações e reações faz um bem danado. Ao nosso bem estar e ao bem do outro, diga-se de passagem.
Pode parecer egoísmo ou insensatez, mas chega uma hora que a gente percebe que a paz está no silêncio ou no barulho individual de cada um. Próprio. Singular. Na busca por dias melhores a que cada um se propõe. Meio clichê, mas verdadeiro: se eu quero, consigo. Se não quero, arranjo uma desculpa.
É preciso ser inteiro para ser parte de um casal ou de uma turma de amigos. É preciso saber estar bem sozinho para ser feliz acompanhada. É preciso saber o seu papel na vida para não ser coadjuvante na vida alheia. Ser cumplicidade na hora certa, para não sufocar os demais. Ser você o coração que tanto precisa para estar em paz!
Pode parecer egoísmo ou insensatez, mas chega uma hora que a gente percebe que a paz está no silêncio ou no barulho individual de cada um. Próprio. Singular. Na busca por dias melhores a que cada um se propõe. Meio clichê, mas verdadeiro: se eu quero, consigo. Se não quero, arranjo uma desculpa.
É preciso ser inteiro para ser parte de um casal ou de uma turma de amigos. É preciso saber estar bem sozinho para ser feliz acompanhada. É preciso saber o seu papel na vida para não ser coadjuvante na vida alheia. Ser cumplicidade na hora certa, para não sufocar os demais. Ser você o coração que tanto precisa para estar em paz!
sexta-feira, 17 de abril de 2015
20 e 30 anos
Aos 20 anos, qualquer estrada serve. Mesmo que seja esburacada, ou de terra, ou vá de nada a lugar nenhum. O que vale é a experiência e está tudo bem. Mesmo que o pneu fure, que a gasolina acabe ou que o destino final mude. Aos 30, já sabemos qual estrada é a melhor ou, pelo menos, consegue-se perceber quais são as erradas antes de embarcar em uma. O porta-malas está cheio de bagagem, calcula-se quantos km se roda com um litro de gasolina, há um mapa no porta-luvas e pneus novos. Importa, sim, e muito, o destino.
Aos 20 anos, existe uma grande dose de paciência com os próprios erros. Todos dizem "ainda dá tempo": de mudar de emprego, de trocar de faculdade, de viajar o mundo, de encontrar um amor ou um rumo. Aos 30, mudar de emprego passa a considerar variáveis mais numéricas, trocar de carreira e seguir um sonho soa como uma besteira infantil e, para viajar o mundo, espera-se a baixa do dólar.
Por outro lado, aos 20, o peso de pertencer a um grupo é maior, os padrões que a sociedade impõe atormentam e as normativas da família perturbam. Aos 30, se é mais livre. Nem que seja um pouco. Se a roupa aperta, não importa. Se a decisão não agrada a todos, não se lamenta. Se não queremos algo que todos querem, e daí? E vice-versa, tanto faz. A dona de mim sou eu, afinal de contas.
Aos 20, se a mensagem não chega, se o telefone não toca, se o relacionamento termina, a vida vai junto e parece o fim do mundo. Não se percebe as lacunas no discurso dos outros, nem as mentiras, ou as máscaras. Aos 30, desvenda-se mais rápido a premissa de cada um, a intenção por trás do sorriso e os furos na personalidade. Não há tempo - muito menos paciência - para conviver com quem é de mentira. E, se o relacionamento termina, enquanto se chora também se escreve uma lista do que fazer de diferente da próxima vez.
Aos 20, colecionam-se colegas que chamamos de amigos. Aos 30, tem-se uma meia dúzias de amigos e não nos sentimos sozinhos.
Se aos 20 reunimos todo o material que nos construirá, aos 30 estabelecemos residência e sabemos quem somos. Pelo menos numa parte maior do tempo. E isso é bom.
Não, não quero casar. Não, não quero ter filhos. E não, não preciso me explicar. Já sou crescida. Tenho 30.
terça-feira, 17 de março de 2015
Antiautoajuda: Neste mundo, sentir-se mal é sinônimo de excelente saúde.
Quando as pessoas dizem que se sentem mal, que é cada vez mais difícil levantar da cama pela manhã, que passam o dia com raiva ou com vontade de chorar, que sofrem com ansiedade e que à noite têm dificuldade para dormir, não me parece que essas pessoas estão doentes ou expressam qualquer tipo de anomalia. Ao contrário. Neste mundo, sentir-se mal pode ser um sinal claro de excelente saúde mental. Quem está feliz e saltitante como um carneiro de desenho animado é que talvez tenha sérios problemas. É com estes que deveria soar uma sirene e por estes que os psiquiatras maníacos por medicação deveriam se mobilizar, disparando não pílulas, mas joelhaços, do tipo “acorda e se liga”. É preciso se desconectar totalmente da realidade para não ser afetado por esse mundo que ajudamos a criar e que nos violenta. Não acho que os felizes e saltitantes sejam mais reais do que o Papai Noel e todas as suas renas, mas, se existissem, seriam estes os alienados mentais do nosso tempo.
Olho ao redor e não todos, mas quase, usam algum tipo de medicamento psíquico. Para dormir, para acordar, para ficar menos ansioso, para chorar menos, para conseguir trabalhar, para ser “produtivo”. “Para dar conta” é uma expressão usual. Mas será que temos de dar conta do que não é possível dar conta? Será que somos obrigados a nos submeter a uma vida que vaza e a uma lógica que nos coisifica porque nos deixamos coisificar? Será que não dar conta é justamente o que precisa ser escutado, é nossa porção ainda viva gritando que algo está muito errado no nosso cotidiano de zumbi? E que é preciso romper e não se adequar a um tempo cada vez mais acelerado e a uma vida não humana, pela qual nos arrastamos com nossos olhos mortos, consumindo pílulas de regulação do humor e engolindo diagnósticos de patologias cada vez mais mirabolantes? E consumindo e engolindo produtos e imagens, produtos e imagens, produtos e imagens?
A resposta não está dada. Se estivesse, não seria uma resposta, mas um dogma. Mas, se a resposta é uma construção de cada um, talvez nesse momento seja também uma construção coletiva, na medida em que parece ser um fenômeno de massa. Ou, para os que medem tudo pela inscrição na saúde, uma das marcas da nossa época, estaríamos diante de uma pandemia de mal-estar. Quero aqui defender o mal-estar. Não como se ele fosse um vírus, um alienígena, um algo que não deveria estar ali, e portanto tornar-se-ia imperativo silenciá-lo. Defendo o mal-estar – o seu, o meu, o nosso – como aquilo que desde as cavernas nos mantém vivos e fez do homo sapiens uma espécie altamente adaptada – ainda que destrutiva e, nos últimos séculos, também autodestrutiva. É o mal-estar que nos diz que algo está errado e é preciso se mover. Não como um gesto fácil, um preceito de autoajuda, mas como uma troca de posição, o que custa, demora e exige os nossos melhores esforços. Exige que, pela manhã, a gente não apenas acorde, mas desperte.
NÃO, TU NÃO TE TORNAS RESPONSÁVEL POR EXPECTATIVA ALHEIA NENHUMA!
Manda longe aqueles que te “amam” sob a condição de que faças exatamente o que de ti esperam. Porque se ousares fazer diferente, se te atreveres a seguir tua própria vontade, sem nada conceder ao capricho alheio, rapidamente te odiarão com a mesma fúria com que hoje te adoram.
Desiste. Desiste de agradar a Deus e todo mundo. Afaga antes a ti mesmo e, se Deus quiser, o mundo todo será teu. Então poderás escolher o que queiras dele e a ele devolver o que puderes.
Cuidado com quem te cobra coerência, perfeição e generosidade. Atenção a quem te julga egoísta por valorizares a vida que te foi dada. Geralmente, é alguém despejando em ti os defeitos que não suporta saber em si mesmo.
Corre. Corre o mais rápido que puderes das malditas expectativas, as suas e as alheias. Expectativas são bichos não domesticáveis. Melhor é criar filhos, cachorros, gatos e lembranças.
E sobretudo perdoa. Aprende a perdoar quem te ataca em tua mais óbvia fraqueza: tu és nada além de um ser humano cheio de falhas que ora carece de companhia, ora anseia por solidão. Mas não te esquece: perdoa, sai de perto e segue em frente. Porque o perdão é a tua liberdade com outro nome.
Reconhece então tua fraqueza e cai no sono sem culpa. Quando acordares, serás ainda a mesma criatura imperfeita de sempre, mas terás mais força que nunca para seguir correndo. Em frente, atrás, de lado, não importa. Só o que ainda vale de tudo isso é o puro e simples movimento. Dispensa o peso.
Manda embora. Liberta-te. Levanta e voa!
Desiste. Desiste de agradar a Deus e todo mundo. Afaga antes a ti mesmo e, se Deus quiser, o mundo todo será teu. Então poderás escolher o que queiras dele e a ele devolver o que puderes.
Cuidado com quem te cobra coerência, perfeição e generosidade. Atenção a quem te julga egoísta por valorizares a vida que te foi dada. Geralmente, é alguém despejando em ti os defeitos que não suporta saber em si mesmo.
Corre. Corre o mais rápido que puderes das malditas expectativas, as suas e as alheias. Expectativas são bichos não domesticáveis. Melhor é criar filhos, cachorros, gatos e lembranças.
E sobretudo perdoa. Aprende a perdoar quem te ataca em tua mais óbvia fraqueza: tu és nada além de um ser humano cheio de falhas que ora carece de companhia, ora anseia por solidão. Mas não te esquece: perdoa, sai de perto e segue em frente. Porque o perdão é a tua liberdade com outro nome.
Reconhece então tua fraqueza e cai no sono sem culpa. Quando acordares, serás ainda a mesma criatura imperfeita de sempre, mas terás mais força que nunca para seguir correndo. Em frente, atrás, de lado, não importa. Só o que ainda vale de tudo isso é o puro e simples movimento. Dispensa o peso.
Manda embora. Liberta-te. Levanta e voa!
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