segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Cinco capítulos

Cinco capítulos

1) Ando pela rua.
Há um buraco fundo na calçada
Eu caio.
Estou perdida... sem esperança.
Não é culpa minha.
Levarei uma eternidade para encontrar a saída.
2) Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada
Mas finjo não vê-lo.
Caio nele de novo.
Não posso acreditar que estou no mesmo lugar.
Mas não é culpa minha.
Ainda assim levo um tempão para sair.
3) Ando pela mesma rua.
Há um buraco no fundo da calçada.
Vejo que ele ali está.
Ainda assim caio... é um hábito.
Meus olhos se abrem
Sei onde estou
É minha culpa.
Saio imediatamente.
4) Ando pela mesma rua.
Há um buraco fundo na calçada.
Dou a volta.
5) Ando por outra rua."
Sogyal Rinpoche





E cada vez que ele me deixava ir embora, eu me reconstruía e voltava.
Não sei se mais forte, mais sábia, mais louca ou mais teimosa.
Não sei dizer se eu voltava em uma versão melhor ou pior; porque isso dependeria do ponto de vista.

quarta-feira, 10 de julho de 2019

Gentileza

Gentileza é a gente deixar o outro ser de carne e osso.
Pois é, acho que ser gentil não é ser bem educado, ser gentil é ser bem humano.
Não é gentil quem age de mal grado com um sorriso no rosto, quem demonstra curiosidade por uma história enorme narrada por um amigo bocejando por dentro, quem responde uma mensagem na madrugada só por educação. Gentileza não é só tratar as pessoas com sorrisos e ‘sins’ e evitar conflitos e evitar desacordos. E esconder verdades quando estas forem duras de dizer. Gentileza é mostrar verdades com jeitinho, é dizer não, é mostrar falta de interesse, é fazer cara de cansaço e desanimo, é pedir licença e mostrar as cartas com delicadeza, é pedir pra sair. E tratar com cuidado a delicadeza do outro. A maior gentileza que alguém pode oferecer é a transparência. É a humildade de dizer a verdade. Gentileza é a gente deixar o outro ser de carne e osso. Gentileza é calor humano. É uma alma esquentando a outra através do olhar. Sorrisos artificiais, comentários ensaiados, frases decoradas, preocupações encenadas não aliviam nada, não são gentis. A gentileza pode estar num olhar cansado, num afastamento na falta de sentimento, numa mão que não se deu, num passo atrás, numa ausência. Ser gentil é tocar em assuntos delicados com delicadeza, ser gentil é machucar avisando que vai doer um pouquinho, é destruir sentimentos, mas de preferencia com um tiro só, certeiro, é desligar o aparelho de palavra doces e educadas que mantém vivo o amor no coração do outro. Ser gentil é matar. É deixar a dor do outro doer em paz. E já não querer ajudar a cicatrizar com preocupações robóticas que poderiam gerar suspiros falsos de vida. É desejar o bem e não mais voltar se é isso que se deseja por dentro. Ser gentil é conversar, é falar o que se pensa, o que se passa, do começo ao fim, e acima de tudo, ser gentil é saber ouvir. Ser gentil é ceder um pouco de tempo, um pouco de ouvido, um pouco de palavras, um pouco de ânimo. Ser gentil é sinalizar. É deixar-se conhecer. Gentileza é mostrar os terrenos para que o outro possa escolher se quer pisar.

terça-feira, 9 de julho de 2019

Viciados em companhia

Sozinho é uma coisa, solitário é outra. Sozinho é com, solitário é sem.
Não confio no amor de quem não consegue ficar sozinho.
Nunca foi ao cinema sozinho, nunca viajou sozinho, perambula pela rua feito um cão que se perdeu do dono. Sentar na lanchonete de uma livraria para tomar um cafezinho assemelha-se a uma catástrofe. Sua solidão lhe parece vergonhosa e indigesta, é evitada com o mesmo afinco com que evitaria a morte.
Para ele, qualquer parceria é melhor que nenhuma. Uma conversa enfadonha é melhor que o silêncio. Um chato é melhor que ninguém. É praticamente um viciado em companhia. E, como todo viciado, critério não é o seu forte.
Não confio no amor de quem não se suporta.
De quem telefona a fim de papo furado, de quem envia mensagens só para ouvir o sinal da chegada da resposta, de quem precisa se iludir de que não está só. Quem de nós não está só?
Uma manhã de frente para o mar, uma tarde com um livro, uma noite com um filme, três dias inteiros numa cidade estranha, uma rua que nunca foi atravessada, um museu com tempo livre à vontade, uma cama vazia – para ele, simulacros do inferno.
Não confio no amor de quem não se entretém.
De quem se desespera em frente ao espelho, de quem não consegue se maravilhar num jardim, de quem não viaja ao ouvir uma música, de quem não gosta de andar de ônibus enquanto aprecia a paisagem pela janela, de quem não se sente inteiro num trem.
Sozinho é uma coisa, solitário é outra. Sozinho é com, solitário é sem.
Eu sozinha sou muitas. Sozinha, tem mais sabor minha comida, tem mais foco o meu olhar, tem mais profundezas o meu ser. Sozinha tem mais espaço minha liberdade, tem mais imaginação a minha fantasia, tem mais beleza a minha individualidade. Sozinha tem mais força o meu pensamento, mais inteireza a minha vontade.
Não confio no amor de quem negocia sua autenticidade.
Como amar de verdade outro alguém, se não sabe de onde esse amor vem? Onde foi gerado, por que é necessário, que atributos ele contém? Amar é doar, não vem do doer. Amar é saber que aquele que a gente ama, se faltar, vai deixar saudade, mas não nos transformará num cadáver a vagar. Não confio em quem ama para ser um par, não confio em quem quer apenas se enquadrar, não confio em quem ama por não se tolerar.
Amar tem que ser extraordinário. Além do que já se tem.
Se sozinho você não se tem, amar vira tubo de oxigênio, ânsia, invenção e enredo barato, perde a dignidade, o amor vira muleta e trucagem. Confio no amor de quem não precisa amar por sobrevivência, de quem se basta e mesmo assim é impelido a se dar, porque dar-se é excelência, não é mendicância.
Não confio no amor de quem não se ama em primeira instância.

Abdiquei do cargo de moça, juntei textos, café, as músicas, e fui embora, num passo triste e descontente de quem muito quis cuidar e nada fez. Desculpa os erros até aqui, moço, desculpa os sonhos que eu compartilhei e você nunca quis vivenciar. Desculpa o mal jeito, a falta de elegância, o mal vocabulário e todo o drama preso em palavras, que eu te obriguei a ler. Desculpa o jeito torto, as frases tortas e as milhares de bobagens que disse até agora. Tanto quanto você, eu mereço ir embora, eu mereço largar tudo e voltar no dia seguinte, só por ter certeza, que aqui é mais seguro. Eu mereço pisar em ovos e correr esse risco todo que o mundo oferece, pra desfrutar dessa adrenalina desconcertada e consumista, que grita dentro do meu peito. Eu posso voltar amanhã, ou não voltar mais, moço. Porque entre tantas idas e vindas, meu coração cansou e minha razão comeu toda essa loucura, que eu chamava de amor.
Nunca fui muito boa em lidar com sentimentos, sabe. Sentimentos são complicados e me dão enjoo. Enjoo do tipo de ficar com aquele frio na barriga toda vez que eu te vejo. Maldito seja o frio na barriga. Toda vez que sinto sei que as coisas estão fora do controle. Os sentimentos estão fora de controle. Eu posso não conseguir controlar o que sinto mas ainda bem que fui abençoada com a capacidade de manter minha boca fechada. Ouvir de mim o que eu sinto por você? Difícil. Primeiro porque tenho bloqueio em dizer o que sinto pra qualquer pessoa; mãe, pai, irmão. Só digo para meus animais de estimação porque sei que eles não vão responder e eu não vou ter que vivenciar uma daquelas cenas melosas de filme. "Te amo tanto, você é tudo na minha vida" Também te amo querida, morro por você". PAROU POR AI.Demonstrar sentimentos é a mesma coisa que ficar vulnerável. Se eu disser o que realmente sinto, tenho a certeza de que irei me sentir no meio de um campo de guerra pronta para levar um tiro fatal a qualquer momento. Dizer nossos sentimentos em voz alta faz com que se tornem realidade, faz com que o mundo saiba disso, faz com ele saiba disso. E eu não consigo, não suporto, o orgulho não deixa e o medo me impede. Mas eu sinto um turbilhão de emoções, uma porrada de sentimentos. Todos eles aqui, misturados, guardados, ocultados. Às vezes não consigo e transbordo eles em forma de atitudes que eu espero que você seja esperto o suficiente para perceber. Fazer o que, é o meu jeito.Odeio pessoas que cobram ouvir o dia inteiro o quanto gostamos delas. Acho que se parássemos pra prestar atenção em cada detalhe e em cada gesto, saberíamos muito bem como a outra pessoa se sente em relação a nós. Eu posso não ter capacidade de dizer "Eu te amo", mas se lembra quando eu te ligava de madrugada morrendo de saudades? Querendo te ver? Esse era meu jeito de dizer que eu te amava. Eu posso não ter a capacidade de dizer que morreria por você, mas lembra quando você arranjou uma briga no meio da boate e eu entrei na frente? Pois é. Posso não conseguir dizer o quanto você é incrível e que te admiro demais, mas sabe quando eu fico te olhando com um sorriso bobo e você pergunta "Que foi?".. Esse é meu jeito de mostrar o quanto te admiro. Posso não ser a pessoa mais sentimental do mundo e nem a mais meiga das mulheres que você já conheceu, mas te garanto um carinho nas horas em que você estiver triste e um abraço quando você mais precisar. Nunca consegui te dizer que não queria te perder e que queria você para sempre, mas se lembra dos abraços apertados que eu te dava? Então. Gestos que demonstram tudo. Tudo aquilo que eu não consigo te dizer.Talvez eu seja só mais uma covarde que não diz o que sente porque tem medo de admitir que ainda tem um coração. É, talvez eu seja. Mas fazer o que se eu cresci ouvindo que atitudes valem mais do que palavras?

segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

Amor no crédito!






Muitos passam pela nossa vida, mas jamais nos esqueceremos dos que nos amaram quando não merecíamos ser amados.