terça-feira, 17 de dezembro de 2013

Da série: Conversas de avião

- É que eu reparei que você está lendo A Viagem Fantástica, do Asimov. O que está achando dele?

- Na verdade, acabei de começar a leitura, mas estou animada. Gosto do Asimov porque ele usa fundamentos científicos prováveis em suas histórias de ficção e não apenas palavras da ciência para enganar o leitor.

- Concordo. Suas histórias talvez possam ser realizadas no futuro. Aliás, ele gosta de escrever sobre viagens. Você já reparou como os livros que relatam viagens encantam as pessoas?

- Nunca tinha parado para pensar sobre isso, mas acho que você tem razão, pois viajar é um forte desejo humano. Tanto a viagem como o livro nos colocam frente ao desconhecido, que é, ao mesmo tempo, excitante e amedrontador.

Estava começando a gostar daquele gringo. Era bem-humorado e entendia de literatura. Resolvi cutucá-lo. Se a conversa estivesse boa eu poderia dar-lhe corda, se não, tinha a desculpa de voltar à leitura.

- Assim como Ulisses e Telêmaco, Vasco da Gama, em Os Lusíadas, é protegido por alguns deuses e perseguido por outros. E você reparou que, em ambos os casos, o objetivo final da viagem é voltar para casa? Fico pensando que esse seria o objetivo de qualquer viagem. Voltar para casa.

- Ou voltar-se a si mesmo - continuou ele. - Olhar o exterior para entender melhor o interior. Você tem razão quanto ao destino final.

- Você volta diferente, melhor do que era antes de partir. A conclusão é que a melhor parte de uma viagem é a volta? - perguntei.

- Não, a melhor parte é o aprendizado. Veja o caso dos livros do escritor brasileiro que está despontando no mundo. Seus personagens voltam para casa só após terem aprendido alguma coisa. (Ele estava se referindo ao Paulo Coelho, que na época já tinha lançado seus dois primeiros livros, ambos sobre viagens.)

Já se passaram um tempo desde esse encontro. Não me lembro o nome dele, nem se o diálogo foi exatamente assim. Mas me lembro bem do assunto, sobre ele, lembro que estava morando no Brasil porque havia se apaixonado primeiro por uma brasileira do Norte e depois por nossa cultura, música e comida. E lembro que ele citou Bob Dylan antes de pedir licença e se recostar na poltrona para dormir o resto do voo:

- Yes, my friend:("A vida nada mais é do que uma viagem") E me deixou com o livro nas mãos, a cabeça cheia de pensamentos e o coração pulsando com a ideia de que a vida é uma viagem fantástica. Nunca mais parei de me considerar uma viajante para seguir em frente, seja em outro continente, seja em meu bairro.

Viajar é uma das melhores sensações da vida. Uma viagem não se esgota no retorno. Continua em nossa lembrança em forma de imagens, sons, cheiros, texturas. Uma viagem pode não ser a vida, mas é uma bela metáfora dela, pois nos faz defrontar uma realidade maior e nos abre a alma para o entendimento.

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Deus não apenas perdoa, ele esquece. Apaga a Lousa. Destrói as provas. Queima o filme. Formata o computador. Ele não se lembra dos meus erro...