Devagarinho, a gente começa a sentir que algo precisa ser feito. Embora ainda não faça. Embora ainda insista em fazer ouvidos de mercador para a própria consciência. Embora às vezes ainda estresse toda a musculatura da alma, lesione a vida, enrijeça o riso, embace o brilho dos olhos, envenene os rios por onde corre o amor. Por medo da mudança, quando não dá mais para carregar tanto peso, a gente aprende a empurrá-lo, desaprendendo um pouco mais o prazer. Quase nem consegue respirar de tanto esforço, mas aguenta ou pelo menos faz de conta, algumas vezes até com estranho orgulho. Até que chega a hora em que a resistência é vencida. A gente aceita encarar o casulo. A gente deixa a natureza tecer outra história. A gente quer tecer junto. A gente permite que o efeito borboleta aconteça.
terça-feira, 11 de junho de 2013
Pessoas com vidas interessantes não têm fricote. Elas trocam de cidade. Sentem-se em casa em qualquer lugar. Investem em projetos sem garantia. Aceitam um convite para fazer o que nunca fizeram. Estão dispostas a mudar de cor preferida, de prato predileto. Começam do zero inúmeras vezes. Não se assustam com a passagem do tempo. Sobem no palco, tosam o cabelo, fazem loucuras por amor e compram passagens só de ida...
terça-feira, 28 de maio de 2013
segunda-feira, 13 de maio de 2013
quarta-feira, 8 de maio de 2013
Do outro lado da mesa
"Todos os primeiros encontros são decepcionantes, todos!". Foi isso que ouvi uma amiga cuspir na minha orelha com toda fúria.
- Se você está numa vibe romântica – continuou ela, irritada -, o cara fica cortando sua onda.
Se você quer transar com ele, ele fica apavorado para que você não se apaixone.
Se você fica nervosa porque vai encontrá-lo, ele diz que isso é fruto de uma alta expectativa.
Se você diz que não faz questão de jantar com vinho e velas, ele diz que você não está dando a atenção que ele merece.
Não dá pra vencer esse jogo!
Mulheres (e homens) saem para um primeiro encontro pensando no que o outro pode lhes dar, nas suas necessidades femininas, nos seus desejos, nas suas carências e frustrações. É como se houvesse uma fumaça ora rosa-choque, ora negra, a lhes envolver, uma fumaça que as induz a exigir que o gajo em questão supra suas carências (de preferência todas) e sane suas frustrações (de preferência todas). E de preferência na primeira noite.
Não há possibilidade de que algum prazer, qualquer prazer, ecloda daí.
Minha amiga me pergunta o que, na minha sacrossanta opinião, seria um bom primeiro encontro. Por conta da sua ironia mal disfarçada, a convido para um café (vamos adoçar um pouco a moça) e só então digo o que penso.
Um bom primeiro encontro deveria ser uma dedicação ao amor, mas eu não me refiro a esse amor romântico cheio de taxas sob a forma de elogios, promessas e lugares-comuns.
Uma mulher que sai para um primeiro encontro poderia ter não a preocupação do que aquele homem pode dar a ela, mas, ao contrário, do que ela pode dar àquele homem. E obviamente eu não me refiro a sexo, embora ele possa ocorrer.
Por que não ter como objetivo transformar algumas horas do dia desse homem numa experiência prazerosa? Por que não pensar que talvez haja um náufrago do outro lado da mesa e que esse náufrago queira apenas que alguém entenda isso? Talvez haja um sedento de inteligência, de gratuidade, de bobagens, de compreensão, de silêncio. Talvez haja um homem tão cansado de cumprir papéis quanto você e você vai sair para cobrar dele justamente mais um espetáculo nesse mesmo cansativo papel?
Em vez de querer amor, por que não sair para dar amor? Amizade é amor. Atenção é amor. Ficar em silêncio é amor. Dar as mãos sem a necessidade de nada mais é amor. Emprestar um livro ou um CD especial é amor. Se preocupar com o outro mais do que com você é amor.
Você não tem nenhum controle sobre o que vai receber de alguém, mas tem controle absoluto sobre o que dá, então que tal fazer um uso generoso disso? Saia do seu umbigo de mulher sofrida (qual de nós, não é?) e se doe sem desejar nada além. Experimente pensar com carinho apenas no bem-estar do outro. Quem sabe esse outro não sai de casa com o mesmo intuito? Desse modo, talvez, apenas talvez, possa acontecer um bom primeiro encontro...
- Se você está numa vibe romântica – continuou ela, irritada -, o cara fica cortando sua onda.
Se você quer transar com ele, ele fica apavorado para que você não se apaixone.
Se você fica nervosa porque vai encontrá-lo, ele diz que isso é fruto de uma alta expectativa.
Se você diz que não faz questão de jantar com vinho e velas, ele diz que você não está dando a atenção que ele merece.
Não dá pra vencer esse jogo!
Mulheres (e homens) saem para um primeiro encontro pensando no que o outro pode lhes dar, nas suas necessidades femininas, nos seus desejos, nas suas carências e frustrações. É como se houvesse uma fumaça ora rosa-choque, ora negra, a lhes envolver, uma fumaça que as induz a exigir que o gajo em questão supra suas carências (de preferência todas) e sane suas frustrações (de preferência todas). E de preferência na primeira noite.
Não há possibilidade de que algum prazer, qualquer prazer, ecloda daí.
Minha amiga me pergunta o que, na minha sacrossanta opinião, seria um bom primeiro encontro. Por conta da sua ironia mal disfarçada, a convido para um café (vamos adoçar um pouco a moça) e só então digo o que penso.
Um bom primeiro encontro deveria ser uma dedicação ao amor, mas eu não me refiro a esse amor romântico cheio de taxas sob a forma de elogios, promessas e lugares-comuns.
Uma mulher que sai para um primeiro encontro poderia ter não a preocupação do que aquele homem pode dar a ela, mas, ao contrário, do que ela pode dar àquele homem. E obviamente eu não me refiro a sexo, embora ele possa ocorrer.
Por que não ter como objetivo transformar algumas horas do dia desse homem numa experiência prazerosa? Por que não pensar que talvez haja um náufrago do outro lado da mesa e que esse náufrago queira apenas que alguém entenda isso? Talvez haja um sedento de inteligência, de gratuidade, de bobagens, de compreensão, de silêncio. Talvez haja um homem tão cansado de cumprir papéis quanto você e você vai sair para cobrar dele justamente mais um espetáculo nesse mesmo cansativo papel?
Em vez de querer amor, por que não sair para dar amor? Amizade é amor. Atenção é amor. Ficar em silêncio é amor. Dar as mãos sem a necessidade de nada mais é amor. Emprestar um livro ou um CD especial é amor. Se preocupar com o outro mais do que com você é amor.
Você não tem nenhum controle sobre o que vai receber de alguém, mas tem controle absoluto sobre o que dá, então que tal fazer um uso generoso disso? Saia do seu umbigo de mulher sofrida (qual de nós, não é?) e se doe sem desejar nada além. Experimente pensar com carinho apenas no bem-estar do outro. Quem sabe esse outro não sai de casa com o mesmo intuito? Desse modo, talvez, apenas talvez, possa acontecer um bom primeiro encontro...
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